Isa Meirelles: rede social com responsabilidade, propósito e muita diversidade

5 de Novembro de 2019

Isadora Meirelles (@isa.meirelles) era estudante de Relações Públicas e fazia estágio em uma grande empresa quando percebeu que precisava entender mais sobre diversidade — mesmo sendo uma pessoa com deficiência. Isa, como é conhecida nas redes sociais, foi diagnosticada ainda na infância com glaucoma cognitivo e perdeu a visão do olho esquerdo aos três anos de idade, mas isso, segundo ela, nunca funcionou como uma barreira em sua vida.

Ao conviver com pessoas diferentes no trabalho, ela passou a enxergá-las por outra perspectiva. “Até então, eu nunca havia estudado ou convivido com pessoas assim. E isso acabou me deixando preocupada, porque percebi que o meu olhar era um recorte da realidade em que eu vivia”, explica. Em 2017, começou a explorar as redes sociais para encontrar pessoas de diferentes ambientes e mundos, com deficiência ou não. Como comunicadora, ela sentiu a necessidade de conviver mais com a diversidade para criar uma comunicação acessível e participativa

Foi só ela mergulhar no universo das hashtags, para descobrir como pessoas com deficiência que, por exemplo, não enxergam ou não escutam, conseguem se relacionar com o mundo, especialmente no ambiente digital. “Eu comecei a buscar pelas hashtags #PraCegoVer ou #PraSurdoOuvir a fim de encontrar essas pessoas e entender como elas se posicionavam nas redes”, afirma. Bastou esse estímulo para a influenciadora entrar ativamente (e com propósito!) nas redes sociais. 

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“Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira”. Saramago Quando decidi ser ativa aqui no Instagram muitos me questionaram como e porque de ter esse número de seguidores. Nunca fui uma pessoa ligada às redes sociais e de expor tanto a vida pessoal, mas daí que percebi minha responsabilidade de compartilhar muitas coisas que enxergava e que os outros não. Não que eu seja uma sábia, estou longe disso. Continuo cega para muitas coisas da vida. Mas aprendi a enxergar as deficiências e querer fazer algo por elas. Eu aprendi a enxergar a pessoa que precisa que as imagens fossem traduzidas em palavras para poderem ser vistas. Eu aprendi a enxergar as calçadas sem rampa como muros para quem usa cadeira de rodas. Eu aprendi a enxergar que um site sem acessibilidade é um obstáculo e que muitos não usam o Instagram porque é uma rede social com MUITAS barreiras. Não é possível enxergar tudo, mas podemos é possível enxergar pelos olhos dos outros. Deixo o convite para que todos nós usemos as redes sociais ecdemaus canais de comunicação em rede para tentar enxergar o outro, isso é um ato revolucionário! Ilustração: @tartics *este post possui texto alternativo. #PraCegoVer: Ilustração do rosto de Isa. Ela tem o olho direto verde e o esquerdo azul. Usa maquiagem amarela embaixo dos olhos e sombra rosa e preta em cima. usa batom amarelo na boca. Na altura do seu nariz está escrito: enxergar o outro é revolucionário. #saramago #cegueira #moral

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Conectada, ela conheceu novas histórias, fez amizades e conseguiu criar uma comunidade. A cada post, o número de comentários e interesse aumentava. Foi nesse momento que Isa identificou que estava sendo notada e que, de alguma forma, conseguia inspirar outros usuários. “Essa questão de influência começou com o meu ciclo mais próximo. Depois, as pessoas vinham me perguntar sobre alguns posts que eu tinha feito. Quando vi, estava inserida em uma rede de pessoas que compartilhavam dos mesmos objetivos. Foi bem natural”, conta a criadora de conteúdo, que hoje conta com 22,5K seguidores no Instagram. 

“Foi exatamente nesse momento que eu entendi que poderia começar a influenciar outras pessoas”, explica. 

Nas redes sociais, Isa trabalha com o conceito de comunicação acessível, compartilha informações para romper a barreira da exclusão e aumentar a representatividade. “Quando eu era pequena, tinha o sonho de ser atriz, mas acabei excluindo essa opção, porque não via atrizes com deficiência em papéis de protagonismo ou destaque. Foi aí que percebi essa falta de referência”, revela. 

A boa notícia, segundo ela, é que o cenário está mudando, especialmente nos últimos cinco anos. As marcas estão em busca de mais diversidade, e as pessoas com deficiência estão ocupando mais espaços no mercado de trabalho, na publicidade, nas ruas e nos locais de lazer e cultura. “Ainda vivemos em um tempo onde a pessoa com deficiência ocupa o papel de uma pessoa com deficiência. Sei que já avançamos, mas ainda precisamos evoluir muito para desconstruir essa imagem”. E, para ampliar ainda mais essa visibilidade, Isa desenvolveu, em parceria com outras mulheres, o “Quem São Elas?” (@coletivoquemsaoelas), um coletivo que deseja transformar a moda em algo inclusivo, unindo estilo e representatividade.

Outra questão levantada por ela é a da tal responsabilidade ao compartilhar informações e o impacto gerado na vida dos seguidores. “Começaram a utilizar os meus posts como fonte. Com isso, tive que ter um cuidado redobrado ao me pronunciar sobre algo”, diz. Isa não só entendeu essa responsabilidade, como também passou a ser cobrada. Se ela divulga um serviço que não é tão acessível, recebe críticas. “Hoje, tudo o que eu faço ou exponho, penso muito no posicionamento antes. Porque eu acredito que, quando você defende algo, precisa se responsabilizar por isso”, finaliza. 

Para ser influencer é preciso…

O principal, segundo Isa, é começar a interagir. A sugestão dela é ir além do ambiente virtual e criar relacionamentos. Tentar produzir conteúdo em conjunto ou realizar co-marketing também são boas opções, uma vez que, para ela, a colaboração e o relacionamento vão nortear os criadores de conteúdo do futuro.


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